Educandário Santa Tereza reúne ex-alunas em encontro emocionante

Uma tarde para reativar memórias e recordar vivências com antigas colegas de escola. Foi assim, repleto de emoção, o 1º Encontro de Ex-Alunas, realizado pelo Educandário Santa Tereza, na última quinta-feira (19/12), no salão da instituição, que é mantida pela Santa Casa de Misericórdia do Recife. O evento reuniu mulheres que tiveram suas infâncias transformadas naquele local que, no passado, funcionou em regime de internato, acolhendo meninas em situação de vulnerabilidade, sobretudo órfãs. Até hoje, o Santa Tereza oferece proteção social básica e diversas atividades educativas e recreativas a crianças e jovens da periferia de Olinda.

“Aqui é um espaço que proporciona não apenas a assistência e educação, mas que leva a construir vínculos afetivos”, disse a Irmã Eva Albuquerque, diretora do educandário, ao dar início ao encontro. Para a gerente de Educação e Assistência Social da Santa Casa Recife, Esmeralda Moura, uma das missões da instituição é tornar as alunas verdadeiras cidadãs, conhecedoras de seus direitos. “Queremos que elas entendam, desde cedo, junto com as suas mães e suas famílias, que elas são dignas de direitos. Do direito humano, do direito a ter uma condição de vida, um futuro, uma perspectiva”, afirmou.

Fabiana Ferreira, que estudou dos 7 aos 18 anos no Santa Tereza, aprendeu bem essa lição. “Eu passava necessidade e aqui eu resgatei tudo de bom na minha vida. Tudo que sou hoje e toda a minha luta… Não é briga, é reivindicação. Eu não brigo com ninguém. Eu reivindico os meus direitos. Aprendi a lutar e saber lutar, da melhor forma”, contou a dona de casa, que hoje é mãe de três filhos – que, segundo ela, “são motivo de orgulho”. A filha mais nova, Gisele, é aluna do educandário. “Essa casa continua me acolhendo até hoje”, declarou Fabiana.

Representando as décadas de 70 e 80, a ex-aluna Verônica Nascimento era uma das mais entusiasmadas do encontro. “Quando entrei aqui, eu não tinha nem três anos, era um bebê”, contou. Ao olhar as fotos, que enfeitavam o salão, Verônica encontrou uma que a fez voltar no tempo: “Me vi menininha, na sala de recreação. Muito emocionante. Sou grata pelo que fizeram por mim. Eu lembro que não tinha dinheiro para o ônibus e as irmãs compravam o meu vale-transporte, para eu chegar aqui. O que sou, eu devo a esse lugar”, relembrou a comerciante, que, até os dias de hoje, vende toalhas de crochê e panos de prato, talento que desenvolveu na época de escola.

A comerciante Verônica Nascimento se emocionou ao ver as fotos da sua época: “Me vi menininha, na sala de recreação”

Formada em Arquitetura e Urbanismo e mestre em Artes Visuais, a ex-aluna Clara Nogueira de Carvalho também aprendeu a bordar e fazer crochê no educandário. Da habilidade adquirida nos tempos de menina brotou uma paixão. “Com esse meu trabalho com fios e linhas, eu estou mapeando as mulheres que trabalham com fios em Pernambuco. Esse projeto está me sustentando desde 2017 e, com certeza, essa sementinha foi plantada aqui”, disse a pesquisadora, que descobriu que a mulher que levou a renda renascença para Poção — município do Agreste de Pernambuco famoso por este tipo de artesanato —, foi Maria Pastora, que também havia sido aluna do Santa Tereza. Foi no educandário, com a Irmãs Vicentinas, que ela tinha aprendido a bordar. “Descobri que ela teve uma história parecida com a minha”.

A irmã de Clara, a advogada Lara Nogueira, também estava presente no encontro e, para ela, o Educandário Santa Tereza é um local abençoado. “Deus reservou um lugar aqui na Terra para que minha mãe pudesse depositar as filhas e elas serem bem guardadas. Esse lugar evitou que a gente sofresse muita coisa na rua, como violência”, relatou. Lara também relembrou as histórias vividas no educandário com muito bom humor. “A gente roubava cajarana quando ia estender as roupas. Agradeço por tudo, pelos tratamentos odontológicos e também pelos piolhos arrancados das nossas cabeças”, disse, provocando risadas da plateia.

Ex-aluna do Santa Tereza, Shirlene Santos foi contratada pela Santa Casa e atua como técnica de Segurança do Trabalho há 22 anos

De menina atendida pela Santa Casa Recife, Shirlene Santos se tornou colaboradora da instituição, após deixar o Educandário Santa Tereza. “Aqui a gente aprende a ter responsabilidade. Através dessa responsabilidade, do meu comprometimento e de dar orgulho para a pessoa que me colocou, faz 22 anos que eu estou lá e agradeço a Deus”, disse Shirlene, que atua como técnica de Segurança do Trabalho no Hospital Santo Amaro (unidade da Santa Casa Recife).

Representante da nova geração, Luana Vitória Pantoja, de 20 anos, também teve sua realidade transformada pelos ensinamentos do educandário. “Se eu não tivesse a oportunidade de entrar aqui, eu não teria o conhecimento que eu tenho hoje, minha cabeça seria centrada em outras coisas. Hoje eu consigo enxergar o valor das coisas. A única palavra que poderia descrever é gratidão, a cada pessoa”, resumiu a estudante.

HISTÓRIA – No passado, o Educandário Santa Tereza funcionava em regime de internato, acolhendo meninas em situação de vulnerabilidade social, muitas delas órfãs. Lá, elas faziam curso primário e atividades como datilografia, confeitaria, bordado, dança, teatro, entre outras. ⠀

Mantida pela Santa Casa de Misericórdia do Recife desde 1862, a instituição hoje atende meninas de 6 a 12 anos, que recebem educação complementar (no contraturno escolar), além de suporte nas atividades escolares, acompanhamento psicossocial e pedagógico, formação cristã, prática esportiva, informática, coral, apoio nutricional e atendimento odontológico. A maior parte das estudantes vem das comunidades da Ilha do Maruim, V8, V9, Ponte Preta e áreas do entorno. O Educandário também oferece cursos e oficinas gratuitas para mães e avós das assistidas, promovendo um impacto positivo nas vidas de centenas de famílias carentes de Olinda. Desde a sua fundação, no século 19, era administrado pelas irmãs Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, mas, em 2019, passou a contar com a direção da  Congregação das Missionárias Reparadoras do Coração de Jesus. ⠀

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Confira, no vídeo abaixo, alguns depoimentos do 1º Encontro de Ex-alunas do Educandário Santa Tereza:

Texto/imagens: Cínthia Carvalho – Comunicação Santa Casa Recife