Residências Terapêuticas: onde mora o acolhimento e renasce a esperança

Espalhadas por diversos bairros da capital pernambucana, estão as chamadas Residências Terapêuticas – ou apenas RTs. Em nada elas são diferentes de outras moradias comuns, com seus muros, cômodos e terraços, exceto pelo fato de que elas existem para acolher e resgatar a dignidade daqueles que sofrem um grave estigma da sociedade: as pessoas com transtornos mentais. São 50 RTs na cidade e, por meio de uma cogestão com a Prefeitura do Recife, a Santa Casa de Misericórdia do Recife gerencia 34 dessas casas, abrigando cerca de 270 moradores, em diversos níveis de comprometimento.

O debate sobre políticas públicas voltadas às pessoas com doenças mentais se faz necessário, pois o Brasil ainda caminha em seu processo de Reforma Psiquiátrica. Muitos desses homens e mulheres que chegam às RTs ficaram internados por longos períodos em hospitais psiquiátricos do estado ou tiveram passagem por Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Outros são egressos de hospitais de custódia e enfrentam problemas com o sistema penal brasileiro. Situações que, por consequência, resultaram na interrupção da sua cidadania e dos vínculos familiares.

Implantado no início dos anos 2000 e oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o serviço das RTs busca justamente garantir o direito desses indivíduos a uma vida digna, distante do modelo que rege os antigos manicômios. Nesses lares, a aposta é na reabilitação dessas pessoas por meio da sua reinserção nas relações sociais – conforme dispõe a Lei Nº 10.216/2001 (a chamada Lei Antimanicomial).

“Muitos moradores saem, vão à padaria, fazem feira. Além disso, eles são estimulados a participar das tarefas da casa, cuidando do jardim, da limpeza, cozinhando. Em nada se diferem da rotina da minha, da sua casa. Dessa forma, acreditamos que eles voltam a se sentir donos de sua própria existência”, explica a psicóloga Marceline Cavalcanti, que é coordenadora das Residências Terapêuticas da Gerência de Projetos Municipais da Santa Casa Recife. As RTs fazem parte de uma grande rede psicossocial e, segundo ela, têm como norte a bandeira da humanização. “Vai muito além do cuidado. Aqui estabelecemos vínculos de confiança e afeto com eles”, completa.

Em uma dessas residências, situada no bairro da Iputinga, é comum o dia amanhecer ao som de frevo e com aroma de bolo de macaxeira saindo do forno. Uma das moradoras, que identificaremos apenas como Maria, recebe os visitantes com sorriso no rosto, mas faz questão de compartilhar uma das memórias mais tristes da sua vida. “Eu levava choques na cabeça no hospital. Lá tinha vigia. Tinha grade. Não podia fazer as coisas, né?”, conta, relembrando a época em que ocupou um leito psiquiátrico de um grande hospital. Hoje, em seu lar, Maria tem seu quarto, decorado do seu jeito, e conhece o significado da palavra liberdade. “Aqui é muito bom. Eu vou ao shopping, compro minhas coisas. A gente é feliz, bem cuidado, né?”, conclui.

Alba Valéria, cuidadora e funcionária da Santa Casa há quase dez anos.

Esse tipo de terapia surte efeito não só para os moradores, cujo desenvolvimento é notável, como também para os que trabalham nesses locais. Funcionária da Santa Casa há quase uma década, a cuidadora Alba Valéria é prova viva disso. Tanto que, durante as férias, sente falta do convívio com as suas “amigas”. Na RT onde ela trabalha, moram apenas mulheres. “É gratificante ver o cuidado delas comigo e o meu com elas. É uma troca de conhecimento, porque a experiência da casa é diferente da vivida no hospital. Elas querem desabafar e têm em mim uma amiga, como se fosse da família. É um trabalho de amor, de saber intermediar conflitos o tempo inteiro. A recompensa é essa: a de estar feliz”, conta, emocionada.

Além dos profissionais contratados pela Santa Casa, que são cerca de 200 pessoas, os moradores dispõem de toda a rede pública de saúde caso necessitem de atendimento médico assistencial. Para a técnica de referência Carla Andreza, que cuida de questões administrativas de duas RTs, cada dia de progresso no tratamento é um novo desafio que torna o trabalho gratificante. “O que nós fazemos nas residências é ressignificar vidas. É uma construção que parte do investimento no afeto, na disponibilidade, na integração e na empatia”, conta. “Mesmo com tanto sofrimento que eles já passaram, muitos poderiam reter esse amor. Mas não. Eles são abertos. Por isso, o vínculo que criamos é muito forte”.

Confira abaixo o vídeo em alusão ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial:

https://youtu.be/Sf1DrxQAZGM